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Chances inexploradas nos parques brasileiros
 

                                                                                                                                                            Por Marcia Hirota

 

O Cristo Redentor é uma das sete maravilhas do mundo moderno, um símbolo do Brasil no exterior e a atração turística mais conhecida do Rio de Janeiro. Do alto da Floresta da Tijuca, o que pouca gente sabe é que o Corcovado, onde fica o Cristo, está dentro de uma Unidade de Conservação (UC), o Parque Nacional da Tijuca, referência do potencial turístico dos parques nacionais do país, com mais de 2 milhões de visitas por ano.

Com 3.953 hectares de área, o Parque protege fragmentos do bioma Mata Atlântica essenciais para a cidade, sendo responsável pela oferta de diversos serviços ambientais, como a manutenção do manancial hídrico, controle da erosão e redução da poluição atmosférica, além de manter a rica biodiversidade local. Ao mesmo tempo, é um polo de turismo sustentável e uma importante área de lazer.

O exemplo do Parque Nacional da Tijuca é ainda um ponto fora da curva na realidade dos parques brasileiros. Atualmente, dos quase 70 parques nacionais existentes, apenas 26 estão abertos à visitação e só 18 possuem infraestrutura mínima. Em 2012, esses parques tiveram 5,3 milhões de visitantes e arrecadaram quase R$ 27 milhões com a venda de ingressos, sendo que pouco mais de 3 milhões de visitas ocorreram somente nos Parques Nacionais da Tijuca e do Iguaçu (Paraná), sendo este segundo um exemplo emblemático da desvalorização dos nossos parques.

O turismo de natureza é o que mais cresce no mundo, entre 15% e 25% ao ano, um potencial que o Brasil não aproveita

O Parque Nacional do Iguaçu, que abriga as Cataratas do Iguaçu, patrimônio natural da humanidade, é o segundo mais visitado do Brasil e está gravemente ameaçado por um Projeto de Lei (nº 7.123) em tramitação no Congresso Nacional que busca alterar o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC) para permitir a reabertura de uma antiga estrada que cortava o Parque, fechada em 2003 por decisão judicial. Há ainda os impactos de uma hidroelétrica nos limites desse parque.

Estudo realizado por cientistas da Universidade Federal de Pernambuco e do Imazon, apresentado em abril na publicação científica "Conservation Biology", indica que nas últimas três décadas o Brasil perdeu 5,2 milhões de hectares de florestas nativas que eram protegidas por lei, área equivalente ao território da Costa Rica.

Com isso, além da perda de patrimônio público, o país desperdiça oportunidades de ativar a economia nacional, fomentar iniciativas para promover o desenvolvimento regional por meio de atividades sustentáveis ou ligadas ao turismo, que poderiam gerar mais trabalho e melhorar a distribuição de renda, contribuindo para a inclusão social.

Um ótimo exemplo desse potencial é o Parque Nacional da Serra da Capivara, localizado no sudeste do Estado do Piauí e que recebe turistas de todo o mundo interessados em conhecer sítios arqueológicos que preservam centenas de pinturas rupestres. Quem visita o Parque descobre também uma das melhores infraestruturas do país, fruto do trabalho de quatro décadas da pesquisadora e arqueóloga Niéde Guidon. São mais de 400 km de estradas internas com drenagem, pavimentação nos trechos mais complicados, centenas de sítios arqueológicos preparados para visitação com passarelas e rampas de acesso, iluminação, sinalização bilíngue e coletores de lixo, entre outros. 

O trabalho da doutora Niéde e sua equipe da Fundação Museu do Homem Americano tem revolucionado as teorias de ocupação das Américas, conquistando prêmios e reconhecimento internacionais. Impressionante também o impacto na realidade das comunidades do entorno do parque: escolas de tempo integral foram construídas para atender às crianças da região, incluindo alimentação e tratamento dentário. Técnicas de apicultura e produção de cerâmica foram repassadas aos jovens. As mulheres, que antes dependiam dos maridos, passaram a ocupar vagas nas mais diversas atividades oferecidas pelo Parque.

Na cidade de São Raimundo Nonato, com cerca de 35 mil habitantes, foi construído o "Museu do Homem Americano", comparável aos melhores do mundo nessa área, o Centro Cultural Sérgio Motta, que conta com laboratórios onde pesquisadores de diversas partes do mundo e moradores locais trabalham e um campus da Universidade Federal do Vale do São Francisco, com o primeiro curso público de graduação em arqueologia do Brasil. A notícia ruim é que todas essas conquistas estão hoje ameaçadas pela falta de investimentos públicos, necessários para manter a estrutura implantada. Um hotel 6 estrelas, nos moldes do que existe na África do Sul, já teve também seu projeto aprovado, mas ainda não saiu do papel pela falta de conclusão de um aeroporto, em obras há mais de 10 anos.

Segundo a Organização Mundial do Turismo, o turismo de natureza é o segmento que mais cresce no mundo, entre 15% e 25% ao ano. No entanto, o Brasil, potência ambiental com beleza paisagística incrível, pouco aproveita.

Recente pesquisa do Instituto Semeia avaliou o potencial econômico das Unidades de Conservação brasileiras e constatou que o uso turístico dessas áreas poderia gerar uma receita de até R$ 168 bilhões em dez anos. Comparar essa receita com o PIB nacional (R$ 5,2 trilhões) pode, à primeira vista, sugerir que o potencial é pequeno. Trata-se contudo de uma conclusão equivocada. Nos EUA, por exemplo, 70% da visitação está concentrada em 20% dos parques preferidos pelo público. Supondo que no caso brasileiro 70% da receita adicional potencial desses R$ 168 bilhões também seja concentrada no primeiro quintil das regiões ordenadas pelo turismo, o impacto médio sobre o PIB desses locais é bastante expressivo, da ordem de 3,5%.

Os Parques Nacionais realmente estão abandonados num contexto de uma agenda de país. O Brasil precisa reconhecer as Unidades de Conservação como o seu maior ativo e priorizar novos mecanismos e recursos aos patrimônios existentes para que o país também se fortaleça como destino turístico. Hoje, nem os brasileiros nem visitantes estrangeiros podem usufruir adequadamente dessas riquezas.

 

Marcia Hirota é diretora executiva da Fundação SOS Mata Atlântica

 

 

Fonte

Jornal Valor Econômico – Caderno Opinião– A23 - Edição impressa