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Brasil, IDH e Terceiro Setor
 

                                                                                                       Por Fred Seifert, Ricardo Martins e Leonardo Letelier

 

Em julho, a Organização das Nações Unidas (ONU) divulgou o relatório contendo a versão mais atualizada do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), que mede o desempenho de cada nação em temas como saúde, educação e desigualdade. De acordo com a ONU, o Brasil apresentou melhoras consistentes. Ainda assim, estamos muito aquém de gerar condições de vida dignas para todos os cidadãos e cidadãs do nosso país. Nesse sentindo, além do governo, a sociedade civil pode contribuir muito.

Embora tenhamos subido uma posição, ocupando agora um intermediário 79º lugar entre os 187 países do índice, a desigualdade ainda é o principal entrave para a melhora da nossa situação. Se temos um escore geral de 0,744, cuja nota máxima é 1, pontuamos míseros 0,542 na igualdade de distribuição de renda e acesso a serviços como saúde e educação, o que nos poria 16 colocações abaixo caso fosse considerado apenas esse quesito. As Nações Unidas destacaram que programas governamentais como o "Bolsa Família" e a política de cotas em universidades foram muito positivos, mas não tiveram maior alcance devido ao gigantesco passivo social brasileiro - que pode ser, em parte, suplantado por uma sociedade civil organizada.

Para não depender apenas do Estado, que vive cercado de outros interesses, as organizações não governamentais (ONGs) e negócios sociais, com ou sem fins lucrativos, têm crescido no país. Mas o desafio ainda é grande.

Falta de capacidade de gestão e pulverização retiram boa parte da eficácia das ONGs e dos negócios sociais

Uma barreira amplamente citada, e real, é a falta da capacidade de gestão. Embora bem intencionadas, a falta de preparo para a gestão econômico-financeira muitas vezes impede essas entidades de serem bem sucedidas em suas empreitadas. Aliado a esse ponto está a escassez de recursos - até mesmo para melhorar a gestão. Essa merece uma atenção especial, pois, embora seja um país de grande riqueza, o Brasil distribui seus recursos ainda de maneira extremamente concentrada. E a parcela mais rica da população pouco doa de suas fortunas e do seu tempo. O Brasil é apenas o 72º em doações entre os 146 países do World Giving Index (Índice Mundial de Doações, em tradução livre) que, além de medir doações financeiras a organizações sociais, também mede ajuda a terceiros e voluntariado.

Por fim, está o problema da pulverização das organizações: além de pequenas organizações locais efetivas precisamos organizações de grande porte, com sofisticação estratégica, gerencial e operacional, capazes de dialogar e articular com as organizações menores, evitar a duplicação de esforços e fazer frente aos enormes desafios do país.

Doações podem ser classificadas de acordo com o horizonte de alcance. Elas podem ter um viés de imediato, ajudando em casos urgentes - a ocorrência de desastres naturais, semelhantes aos que ocorreram na serra do Rio de Janeiro, por exemplo. Também podem ser de médio prazo, como os chamados recursos "não carimbados", ou seja, sem fim definido, passíveis de serem utilizados pelas organizações para fortalecer sua gestão, ou de longo prazo, ajudando a mudar a estrutura que gera os problemas, apoiando organizações intermediárias que criam soluções para o setor social como um todo. Esses três horizontes - simplificados em dar o peixe, ensinar a pescar e mudar a infraestrutura da indústria da pesca - são complementares e mostram que as doações não se reduzem àquela visão vertical de simples atos de caridade pontuais, de cima para baixo.

Embora destacada no nosso país, a ausência de uma cultura de doação não passou despercebida em outros países. Na verdade, tornou-se tão evidente, que a própria sociedade civil tem se organizado em torno desta causa. Há três anos, iniciou-se um movimento nos EUA chamado #GivingTuesday. A ideia central é utilizar a retórica dos dias de consumo desenfreados, como a "Black Friday" e a "Cyber Monday", que seguem as festas norte-americanas do Dia de Ação de Graças, e utilizá-la para marcar um dia de doações. O #GivingTuesday se tornou um movimento global, chegando a dezenas de países e neste ano chega ao Brasil em parceria com o #diadedoar (em 2014, será no dia 2 de dezembro). 

Existem também iniciativas nacionais interessantes de incentivo às doações. A campanha "Doe Mais, Doe Melhor" reúne histórias e ações de pessoas que já doam recursos. O objetivo da iniciativa não é destinar dinheiro para uma instituição específica e, sim, inspirar outros a fazerem o mesmo, criando uma atmosfera de solidariedade onde cada um encontra maneira de contribuir para mudar o setor social brasileiro.

Para aqueles que podem contribuir financeiramente, a doação pode ser vista de outra maneira dentro do sistema que vivemos: como o melhor investimento disponível. Se bem aplicada, tem como retorno o desenvolvimento humano e a felicidade de quem mais precisa de um sorriso e representa uma retribuição ao papel - muitas vezes subestimado - que cada um tem hoje na sociedade e ao potencial que cada ser humano carrega de transformar a vida dos outros. Doar seu tempo ou habilidades também não pode, de maneira alguma, ser considerado inferior.

As melhoras em nossa sociedade passam por um Estado focado nos interesses do povo, empresas com verdadeira responsabilidade social - muito além de financiar ações externas com um olho no seu retorno para a empresa - e uma profunda revisão do nosso papel no sistema, saindo do individualismo para atitudes coletivas. Doar pode não resolver tudo e ser visto como um gesto pequeno comparado à imensidão dos problemas que temos em frente. Mas é por meio dessas atitudes sutis que, em conjunto, podemos mudar o mundo. E, convenhamos, é bem melhor do que não fazer nada.

 

Fred Seifert é economista pela UFRJ, consultor da SITAWI - Finanças do Bem desde agosto de 2011 e vencedor do Prêmio Itaú de Finanças Sustentáveis 2012 [email protected]

Ricardo Borges Martins, cientista social pela USP, é coordenador da Campanha Doe Mais Doe Melhor e do Movimento Eu Voto Distrital [email protected]

Leonardo Letelier MBA por Harvard Business School, é CEO da SITAWI - Finanças do Bem, premiada pelo BID em 2011 como melhor investimento socialmente responsável da América Latina [email protected]

 

 Fonte

Jornal Valor Econômico – Caderno Opinião– A16 - Edição impressa